terça-feira, 12 de maio de 2015
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Mensagem de Sua Santidade o Papa
Francisco para o XLIX Dia Mundial das Comunicações Sociais (17 de Maio de
2015).
Tema:“Comunicar a família: ambiente privilegiado do
encontro na gratuidade do amor”
O tema da
família encontra-se no centro duma profunda reflexão eclesial e dum processo
sinodal que prevê dois Sínodos, um extraordinário – acabado de celebrar – e
outro ordinário, convocado para o próximo mês de Outubro. Neste contexto,
considerei oportuno que o tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais
tivesse como ponto de referência a família. Aliás, a família é o primeiro lugar
onde aprendemos a comunicar. Voltar a este momento originário pode-nos ajudar
quer a tornar mais autêntica e humana a comunicação, quer a ver a família dum
novo ponto de vista.
Podemos
deixar-nos inspirar pelo ícone evangélico da visita de Maria a Isabel (Lc 1,
39-56). “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de
alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”. Então, erguendo a voz,
exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”
(vv. 41-42).
Este episódio
mostra-nos, antes de mais nada, a comunicação como um diálogo que tece com a
linguagem do corpo. Com efeito, a primeira resposta à saudação de Maria é dada
pelo menino, que salta de alegria no ventre de Isabel. Exultar pela alegria do
encontro é, em certo sentido, o arquétipo e o símbolo de qualquer outra
comunicação, que aprendemos ainda antes de chegar ao mundo. O ventre que nos
abriga é a primeira “escola” de comunicação, feita de escuta e contato
corporal, onde começamos a familiarizar-nos com o mundo exterior num ambiente
protegido e ao som tranquilizador do pulsar do coração da mãe. Este encontro
entre dois seres simultaneamente tão íntimos e ainda tão alheios um ao outro,
um encontro cheio de promessas, é a nossa primeira experiência de comunicação.
E é uma experiência que nos irmana a todos, pois cada um de nós nasceu de uma
mãe.
Mesmo depois
de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num “ventre”, que é a
família. Um ventre feito de pessoas diferentes, inter-relacionando-se: a
família é «o espaço onde se aprende a conviver na diferença» (Exort. ap.
Evangeliigaudium, 66). Diferenças de géneros e de gerações, que comunicam,
antes de mais nada, acolhendo-se mutuamente, porque existe um vínculo entre
elas. E quanto mais amplo for o leque destas relações, tanto mais diversas são
as idades e mais rico é o nosso ambiente de vida. O vínculo está na base da
palavra, e esta, por sua vez, revigora o vínculo. Nós não inventamos as
palavras: podemos usá-las, porque as recebemos. É em família que se aprende a
falar na «língua materna», ou seja, a língua dos nossos antepassados (cf. 2 Mac
7, 21.27). Em família, apercebemo-nos de que outros nos precederam, nos colocaram
em condições de poder existir e, por nossa vez, gerar vida e fazer algo de bom
e belo. Podemos dar, porque recebemos; e este circuito virtuoso está no coração
da capacidade da família de ser comunicada e de comunicar; e, mais em geral, é
o paradigma de toda a comunicação.
A experiência
do vínculo que nos «precede» faz com que a família seja também o contexto onde
se transmite aquela forma fundamental de comunicação que é a oração. Muitas
vezes, ao adormecerem os filhos recém-nascidos, a mãe e o pai entregam-nos a
Deus, para que vele por eles; e, quando se tornam um pouco maiores, põem-se a
recitar juntamente com eles orações simples, recordando carinhosamente outras
pessoas: os avós, outros parentes, os doentes e atribulados, todos aqueles que
mais precisam da ajuda de Deus. Assim a maioria de nós aprendeu, em família, a
dimensão religiosa da comunicação, que, no cristianismo, é toda impregnada de
amor, o amor de Deus que se dá a nós e que nós oferecemos aos outros.
Na família, é,
sobretudo, a capacidade de se abraçar, apoiar, acompanhar, decifrar olhares e
silêncios, rir e chorar juntos, entre pessoas que não se escolheram e, todavia
são tão importantes uma para a outra… é, sobretudo, esta capacidade que nos faz
compreender o que é verdadeiramente a comunicação enquanto descoberta e
construção de proximidade. Reduzir as distâncias, saindo mutuamente ao encontro
e acolhendo-se, é motivo de gratidão e alegria: da saudação de Maria e do
saltar de alegria do menino deriva a bênção de Isabel, seguindo-se lhe o
belíssimo cântico do Magnificat, no qual Maria louva o amoroso desígnio que
Deus tem sobre Ela e o seu povo. De um «sim» pronunciado com fé, derivam
consequências que se estendem muito para além de nós mesmos e se expandem no
mundo. «Visitar» supõe abrir as portas, não encerrar-se no próprio apartamento,
sair, ir ter com o outro. A própria família é viva, se respira abrindo-se para
além de si mesma; e as famílias que assim procedem, podem comunicar a sua
mensagem de vida e comunhão, podem dar conforto e esperança às famílias mais
feridas, e fazer crescer a própria Igreja, que é uma família de famílias.
Mais do que em
qualquer outro lugar, é na família que, vivendo juntos no dia-a-dia, se
experimentam as limitações próprias e alheias, os pequenos e grandes problemas
da coexistência e do pôr-se de acordo. Não existe a família perfeita, mas não é
preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade, nem mesmo dos conflitos;
preciso é aprender a enfrentá-los de forma construtiva. Por isso, a família
onde as pessoas, apesar das próprias limitações e pecados, se amam, torna-se
uma escola de perdão. O perdão é uma dinâmica de comunicação: uma comunicação
que definha e se quebra, mas, por meio do arrependimento expresso e acolhido, é
possível reatá-la e fazê-la crescer. Uma criança que aprende, em família, a
ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista
sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na
sociedade.
Muito têm para
nos ensinar, a propósito de limitações e comunicação, as famílias com filhos
marcados por uma ou mais deficiências. A deficiência motora, sensorial ou
intelectual sempre constitui uma tentação a fechar-se; mas pode tornar-se,
graças ao amor dos pais, dos irmãos e doutras pessoas amigas, um estímulo para
se abrir, compartilhar, comunicar de modo inclusivo; e pode ajudar à escola, a
paróquia, as associações a tornarem-se mais acolhedoras para com todos, a não
excluírem ninguém.
Além disso,
num mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui
com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de
comunicação feita de bênção. E isto, mesmo nos lugares onde parecem prevalecer
como inevitáveis o ódio e a violência, quando as famílias estão separadas entre
si por muros de pedras ou pelos muros mais impenetráveis do preconceito e do
ressentimento, quando parece haver boas razões para dizer «agora basta»; na
realidade, abençoar em vez de amaldiçoar, visitar em vez de repelir, acolher em
vez de combater é a única forma de quebrar a espiral do mal, para testemunhar
que o bem é sempre possível, para educar os filhos na fraternidade.
Os meios mais
modernos de hoje, irrenunciáveis, sobretudo para os mais jovens, tanto podem
dificultar como ajudar a comunicação em família e entre as famílias. Podem-na
dificultar, se se tornam uma forma de se subtrair à escuta, de se isolar apesar
da presença física, de saturar todo o momento de silêncio e de espera,
ignorando que «o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há
palavras ricas de conteúdo» (BENTO XVI, Mensagem do XLVI Dia Mundial das
Comunicações Sociais, 24/1/2012); e podem-na favorecer, se ajudam a narrar e
compartilhar, a permanecer em contato com os de longe, a agradecer e pedir
perdão, a tornar possível sem cessar o encontro. Descobrindo diariamente este
centro vital que é o encontro, este «início vivo», saberemos orientar o nosso
relacionamento com as tecnologias, em vez de nos deixarmos arrastar por elas.
Também neste campo, os primeiros educadores são os pais. Mas não devem ser
deixados sozinhos; a comunidade cristã é chamada a colocar-se ao seu lado, para
que saibam ensinar os filhos a viver, no ambiente da comunicação, segundo os
critérios da dignidade da pessoa humana e do bem comum.
Assim o desafio
que hoje se nos apresenta, é aprender de novo a narrar, não nos limitando a
produzir e consumir informação, embora esta seja a direcção para a qual nos
impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea. A
informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica,
contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por
uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto.
No fim de
contas, a própria família não é um objecto acerca do qual se comunicam opiniões
nem um terreno onde se combatem batalhas ideológicas, mas um ambiente onde se
aprende a comunicar na proximidade e um sujeito que comunica uma «comunidade
comunicadora». Uma comunidade que sabe acompanhar, festejar e frutificar. Neste
sentido, é possível recuperar um olhar capaz de reconhecer que a família
continua a ser um grande recurso, e não apenas um problema ou uma instituição
em crise. Às vezes os meios de comunicação social tendem a apresentar a família
como se fosse um modelo abstracto que se há de aceitar ou rejeitar, defender ou
atacar, em vez duma realidade concreta que se há de viver; ou como se fosse uma
ideologia de alguém contra outro, em vez de ser o lugar onde todos aprendemos o
que significa comunicar no amor recebido e dado. Ao contrário, narrar significa
compreender que as nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as
vozes são múltiplas e cada uma é insubstituível.
A família mais
bela, protagonista e não problema, é aquela que, partindo do testemunho, sabe
comunicar a beleza e a riqueza do relacionamento entre o homem e a mulher,
entre pais e filhos. Não lutemos para defender o passado, mas trabalhemos com
paciência e confiança, em todos os ambientes onde diariamente nos encontramos,
para construir o futuro.
Vaticano, 23
de Janeiro – Vigília da Festa de São Francisco de Sales – de 2015.
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